
QUANTO TEMPO
Quanto tempo tem um sorriso perfeito? Quanto tempo leva a memória para esquecer? E quanto tempo o corpo carrega o cheiro do outro? E a imagem completa, quanto tempo leva para esvaecer? Quanto tempo dura o silêncio mais triste? O grito, quanto tempo para explodir? Depois da fúria, quanto tempo dura o eco? Quanto tempo leva a sensação pra se perder? Quanto tempo passa entre o antes e o depois? E quando acaba, quanto tempo ainda resta, de sobra?
Escrito por Chapeleira às 23h31
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Um cheiro. Um cheiro que não era exatamente o mesmo, mas a fez lembrar de uma sensação antiga. Ana parou quase no meio da rua, para sentir. Fechou os olhos, inspirou; e com o ar poluído e quente do verão carioca, misturado com a poeira e o asfalto de Botafogo, estava lá. Tímido, quase imperceptível, mas presente. Tácito, acre. O cheiro dele. Há anos sabia que este cheiro a perseguia. Agora tinha certeza. Agora, tanto tempo depois, o mesmo cheiro a encontrava numa esquina movimentada, de uma cidade que não era a deles, dos dois.
Uma buzina, uma freada, um xingamento, e Ana continua no meio da rua, alheia, as narinas abertas, os olhos fechados. Sabe que está no Rio de Janeiro, sabe que a vida já não é a mesma de antes, mas sabe também – e sabe com uma certeza absoluta que raramente se permite – que nunca mais vai conhecer um cheiro como aquele, com o poder daquele, com a força dele. Ele. Mais uma vez, ele.
Os odores da cidade se misturam, decompõem a presença física daquele que não está ali, e só assim ela sai do meio da rua, para a calçada, subitamente sem rumo, perdida. Quer voltar no tempo, quer reorganizar a geografia para dobrar a esquina e encontra-lo naquele lugar que ela imagina que ele esteja. Ela cria para ele cenários imaginários.
Escrito por Chapeleira às 23h45
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