Chapelaria das Palavras


 Caríssimo,

 

 

Tu não sabes que te escrevo hoje, antes de nos conhecermos, amanhã. Tu não sabes que te penso como se já te soubesse inteiro, e te lembro antes de ter-te encontrado. Tu não sabes que este silêncio de agora é o prenúncio da tempestade que virá depois. Agora, és todo sensação em mim. Antecipação tranqüila, como o vento que se sabe repleto de areia e não se incomoda, venta mesmo assim. Tu não sabes que tenho os cabelos ainda longos e as unhas ainda vermelhas. E tu não sabes que as minhas mãos te esperam, distraídas, enquanto cumprem as funções da vida. Tu nem desconfias que os objetos reflectem um brilho ainda só anunciado de um futuro mais colorido. Tu não sabes, e me pergunto se um dia saberás. Mas não pergunto a ti. Te observo, distante, enquanto existes apartado de mim. E prossigo com as horas que se sucedem. Elas também não sabem quase nada, mas sentem vontades de ti.

 

 



Escrito por Chapeleira às 21h59
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REENCONTRO

 

Nove anos, uma eternidade. E de repente, saudades. E urgência, e vontades. A madrugada era fria, e as possibilidades transbordavam inundando a rua, o bairro, a cidade. As rimas apareciam sem querer, e as palavras, tantas palavras, todas elas e mais nove anos de silêncio, tudo cabia no sorriso do amigo perdido e reencontrado. Há moradas eternas nesta vida. Há caminhos muito longos que cruzam o deserto, com raros, raríssimos oásis. Há águas que não se pode conter. Há um pouco de tudo, e de mais, e de mim. E nos vemos, nos reconhecemos agora com se fora anteontem. Resquícios do que fôramos nos tomam de assalto e, de pronto, somos inteiros de novo, no ato. Coisa boa, cheiro de chuva caindo no asfalto, óculos embaçados, sabor de especiaria fina, cor de luz do sol refletida na areia clara, que cega, mas não mata. Tudo no limite, mas tranqüilo, apaziguado. Incondicional, avassalador, atávico, antiquado. Só vale ser se for assim, já dizia o poeta que não se permitia partir ao meio, mas se deixava deixar o cais. E depois, nos deixamos um ao outro, sabendo que não poderíamos jamais deixarmo-nos, de fato. 

 



Escrito por Chapeleira às 00h06
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