
Há uma avenida em frente ao grande hotel. Uma avenida larga, com um rio que passa entre as vias. Um rio inteiro, preso entre o asfalto que o cerca. Mas um rio com pontes não é um rio triste. Do alto do prédio não se pode ver se o rio corre, ou se descansa, avesso à correria da cidade enorme que o envolveu. Está lá, indiscutível, em frente ao grande hotel.
Há jardins, janelas, carros, nomes. Há luzes lá em baixo, abajures, lençóis. Uma cama enorme, um chuveiro forte, uma banheira. Ela não corre, enquanto a madrugada de alta vira eterna. Ela olha para fora da janela, para aquela cidade que é a dela e, ainda assim, sente-se desterrada. Fuma, escreve, deita-se, e não dorme. A cama de fato enorme.
Ela escuta os sons da vida que vêm insistentes do mundo lá fora, a televisão ligada, a voz dele gravada. A voz dele gravada. A voz dele, gravada. E ela cantarola sozinha uma canção que ele não conhece, e pensa, e sabe que não entende, e sente.
Há coisas nele que ela não conhece. Há coisas sobre ele que ela sempre soube de cor. Cor, cores, sabores. Cheiro. O cheiro dele ainda nela. O cheiro dele imiscuído no dela, no avião, na rua, no grande hotel inteiro.
E a cidade permanece lá em baixo, e os caminhos são longos, e as certezas estão todas – ela pensa – perdidas como o rio entre as vias.
Escrito por Chapeleira às 03h20
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