Chapelaria das Palavras


 

Ele telefona, depois de dias sem que sua voz faça o mundo existir, e diz que está voltando. Ela escuta, a pressa vira urgência. Ela tem vontade de dizer que ele volte logo para casa. Não diz, pede apenas que ele venha. Ela se prepara para a chegada dele. Agora, ela é só sentidos e antecipação.

 

 

 

 

 



Escrito por Chapeleira às 01h51
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Chega uma mensagem dele no meio da madrugada, e ela lê quando acorda de um pesadelo estranho, meio dormindo. A leitura afasta os fantasmas. Ela sorri. Ele vai voltar.

 

Ela volta para a cama. Entre dormindo a acordada, pensa na nova vida que vai descobrindo desde que ele veio pela primeira vez. Cheia de manias, germofóbica, idiossincrática, percebe que não troca os lençóis há dias, mantém o cheiro dele. Percebe que não arruma a casa, esbarra em detalhes que são dos dois no caminho da cama ao banheiro. Percebe que se lembra do pesadelo que teve, ela, que não costuma sonhar. Sim, ela sabe que todos sonham, mas ela não costumava lembrar-se de nada. Agora sabe tudo de cor.

 

Diverte-se, pela madrugada, com as coisas dele. As inseguranças, os sorrisos, as palavras. Há ainda mundos inteiros a serem desbravados pelos dois. Mas ela já conhece a doçura, alguns carinhos, algumas saudades. A ausência dele desperta nela novas sensações, e ela pensava que ele já a tinha despertado inteira.

 

Ele vai voltar. E ela dorme, agitada. Acorda de quando em quando. Sabe que a cama está vazia, mas sabe também que em breve ele estará ali, com seus olhos, sua voz, suas mãos. Os sentidos atropelam o tempo da espera. Ela espera, no sentido de esperar e ter esperança...

 



Escrito por Chapeleira às 17h07
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Ela acordou, mas não abriu os olhos. Deixou-se estar enquanto respirava o cheiro dele na roupa de cama de há noites atrás. Sabia que ele não estava lá, mas ainda assim o sentia, com todos os sentidos. Sabia-se úmida, marcada, vermelha. Sabia-se irremediavelmente só naquele sábado que começava.

 

Não queria abrir os olhos. Gostava de lugares limítrofes, fronteiriços, e estava ainda entre o sonho de te-lo e a angustia do mundo, estranhamente silencioso àquela hora da tarde. Era tarde. Bem tarde. Quase noite, já, quando ela acordava. Lembrou-se de um poema do Drummond, o poder de aniquilamento que a noite encerra. Logo depois pensou que ele não gosta de poesia, e esqueceu-se do verso e da vida, deitada, de olhos fechados.

 

Era preciso abrí-los. Abrí-lo. Ela tinha vontades estranhas, partí-lo ao meio, fazê-lo em pedaços. Vontades violentas de tê-lo, sabê-lo seu. Não o sabia. Talvez jamais o soubesse.

 

Ele viajara, e desde então era só silêncio. A angústia se misturava com a pressa do corpo pelo reencontro. As pernas rijas. Levantou-se, num ímpeto.

 

Veio o dia, o que sobrava do dia. E com ele os amigos, a feira de livros, as risadas, o restaurante, a fumaça. E uma dor nos lábios a acompanhava. Era a presença dele na carne dela. Nela, onde quer que fosse, ele. Caiu a noite e da dor veio a memória. E a memória é um acumulado de coisas que não foram. Mas a dela conhecia os detalhes de tudo o que havia sido já, mesmo que ainda tão breve, nunca apaziguado.

 

Ela tentava, tentava, mas não conseguia. Pensava no silêncio dele, nestas horas não eram dos dois, na distância que se abatia entre os corpos. Pulsava, ardia, sozinha.

 

Teve medo. Muito medo. Mas sorriu ao entrar em casa. O cheiro dele ainda no ar. No espelho, ele nela. Na cama, as possibilidades todas. Em verdade, o problema, ela sabia, mora nas possibilidades. Nele, não. Mas não era de todo verdade.

 

 

(Segue chovendo, embora a chuva não caia mais sobre a cidade.)



Escrito por Chapeleira às 00h10
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