
Um copo caiu. Era de vidro, quebrou-se. Grandes pedaços cortantes dentro da pia. Um olhar vago observa os cacos, translúcidos, e não os vê claramente. A memória lembra-se dos copos comprados quando da visita da mãe. Dos tantos quebrados desde então. Do último, em pedaços, no chão da cozinha, na semana passada.
Os estilhaços permanecem dentro da pia, enquanto a imagem das mãos que juntaram os pedaços há poucos dias é mais clara do que o vidro. E corta mais fundo. Então, as mãos tornam-se em timbre, e na voz ausente. A presença dá-se na cozinha vazia. E os lábios, os lábios factuais que estão ali agora, sorriem ante a lembrança dos dentes distantes.
Os pedaços da lembrança não formam o todo, que não está agora. Assim como os cacos não formam mais o copo. A sensação de exílio há de passar em breve. Pobre copo, que não voltará a ser-se. Pobres mãos, abandonadas aos cacos, com saudades da pele. Os dedos, em vão, procuram os pedaços. É tudo vermelho.
Escrito por Chapeleira às 05h05
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