Chapelaria das Palavras


Acorda, meu amor, e vem ver o sol já alto. Olha comigo pela janela e vê que o domingo resplandece sem sentir a sua ausência. Vê minhas olheiras; elas denunciam a falta da carne que me alimenta, do suor que mata a minha sede, dos olhos que me iluminam nas madrugadas altas. Vê, meu amor, que as coisas do mundo são as mesmas, mas eu já não sou mais? Eu, ímpar, transtornada em par, sozinha, sem notícias. Eu, vítima de mim mesma, da minha angústia, da saudade de você. Você que me desespera à distância mais do que quando perto. E quando perto já me tira do prumo, me confunde os pontos de vista, bagunça os horizontes em ontem, hoje e amanhã. Acorda, meu amor, escreve para mim, e diz que me ama, que volta em breve para casa, que sem mim você já não sabe mais viver. Vamos, acorda, meu amor, que você gosta de perder a hora e dorme sempre mais do que a cama. Mas hoje, hoje não. Acorda, e fala comigo. Acorda deste sonho ruim dos últimos dias, e volta a sonhar como antes. Acorda, e vem, e me abraça, e me diz, no plural, que estamos bem. Eu amo você também.



Escrito por Chapeleira às 15h59
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Ela perdeu um texto numa partida de poker. Dívida de jogo. Uma lauda. Nem duas, nem meia. Detalhes de formatação à parte, perdeu, tem que pagar. Era a primeira vez que jogavam, embora conhecessem há muito as cartas e as regras.

 

Eram tempos partidos entre a cama, o trabalho e o sentir. Sentia além da conta por isso dormia e trabalhava pouco. Os problemas prementes no horizonte, visíveis, mas distantes. Memórias de um tempo passado, ainda que próximo, quando contava a vida pelas contas e dias do mês. Isso foi antes.

 

Agora a vida era um amontoado de sóis que insistiam em nascer antes do sexo terminar. Era barulhos e umidade. Era qualquer coisa mais próxima da pele macia. O teclado parecia duro demais para seus dedos agora habitados à superfícies crispadas. Tinha muito pouca vontade de escrever.

 

Embora soubesse que lhe sobravam frases soltas, não conseguia compor um texto que pagasse a dívida. Em verdade, não sentia que devia, uma vez que se dava por completo e a cada instante, apaixonadamente.

 

Então se lembrou de pequenos detalhes de sua nova rotina, e só conseguiu pensar em coisas boas. Mantinha o mau humor inabalável que lhe era particular, mas sorria com muito mais freqüência: o controle remoto da televisão, os banhos já pela manhã, o sabonete esfoliante, as latas de coca-cola que nunca eram suficientes, os óculos esquecidos sobre o criado mudo, os cigarros cada vez mais curtos, o cheiro tácito na roupa de cama, a tábua de cortar na cozinha, a faca de fio reto, os livros sobre a mesa.

 

Tudo isso queria se transformar em angústia com a ausência de notícias. Mas ela fazia com que fosse sorrisos e saudade. Mais uma vez, amanhecia. Era uma pena que não ameaçasse chover.

 

Ele não era só um abismo, era também uma tempestade. Uma tempestade de detalhes, pele, cheiros, sensações. E ela sentia, sozinha, esperando que ele voltasse. A história inacabada dos dois tinha nesse capítulo um epicentro: voltaria? Ela não sabia, mas esperava – no sentido de esperar e ter esperança. E queria que ele voltasse não como partira, ao meio. Queria que ele voltasse inteiro.

 

 

 

 

(Edvard Munch, The Kiss 1892)

 



Escrito por Chapeleira às 04h50
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