
Uma página em branco me olha, furiosa. Não sei dizer se grita comigo porque ainda não a preenchi com palavras, eu se berra porque gastei palavras demais em outros lugares. Tenho escrito, dito e pensado muito. Tenho jogado fora muito de mim. Tenho atirado contra a parede, a cama, a página, muito mais do que devia. Tenho me exposto em praça pública, de mãos vazias. Tenho tentado entender além da conta, tenho feito muitos tipos de esforços. Mas por mais palavras que eu use, por mais que meça os silêncios, por mais que fique quando quero fugir (sim, insisto na coragem, ainda que suicida!) bato sempre de encontro à mesma tecla. Não é a saudade a me arranhar a garganta, não é o amor transbordando pelos meus dedos, não é a distância ardendo na minha alma. Estas coisas eu conheço, eu agüento, eu gosto. O que me exaspera e me prostra (olhos rasos d’água, fundos) é este muro de concreto armado contra o qual me bato. A incompreensão do outro é intransponível. E se não há outros, se fôramos um, como é possível que não se perceba a precariedade de tudo que não é inteiro? Eu não gosto de migalhas. A medida com que se mesura o mundo é individual e intransferível. Os detalhes não são pequenos. Saudades, sim, saudades. Do que eu conheço, do que eu sei de cor, e do que eu perco por querer completo. E tudo isso reverbera, mas só em mim. Não passa para a página, não transpõe a tecla, não atravessa o muro. Uma fortaleza cheia de saudade. Logo, vazia.
Escrito por Chapeleira às 16h33
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