
O SUL DAS COISAS
Chove, e faz um vento frio. Dezembro é polar, ao Sul. Bem ao Sul, para lá de tudo o que é possível. Para lá das imaginações européias que sonharam nos trópicos quentes o paraíso. Para lá do amor de verão, das palmeiras imperiais, de tudo o que é irreal e samba em roda com o ar abafado, como um ventilador de emoções. Para além disso tudo, é inverno.
Aqui, no Sul das coisas, o amor arde mais fundo, em contraste com o ar gelado, e vem de dentro um sopro cálido, que queima e amanhece antes da hora. Na Londres do século dezenove Byron cantava o impossível, e não se pode culpá-lo. Nada com a neblina para nos fazer ver o amor, desenhado a ferro e fogo na carne clara.
As carnes do Sul são claras, e as noites escuras. As luzes coloridas, longínquas, falam de uma época particular, onde é possível a esperança, onde oferecer é obrigatório. Não importam as pequenas luzes, comemorando o aniversário daquele que veio oferecer a outra face. Nada, ao Sul, é de graça.
Custa caro o amor, a distância, o alheamento. Aprende-se cedo a sentir e guardar. As sensações explodem inauditas, é tudo silêncio. Os corpos apartados esperam, ansiosos, pelo reencontro. Só sabe quem já esteve para além do mar e do deserto. É assim que tem de ser.
E passam-se dias, meses, anos, e comemora-se as datas que se sucedem no calendário. Nada disso importa. É como se o tempo parasse, gelado, suspenso no ar. É como se o único ciclo fechado fosse o polar. Ao Sul das coisas, aprende-se a sentir eterno.
Escrito por Chapeleira às 14h27
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