
É tanta gente no mundo, que sufoco. Sufoco e penso nos rostos conhecidos, e concluo que são todos tão lindos, que sufoco.
Há tanta beleza esparramada, mãos espalmadas, abraços e beijos jogados ao vento que espalha arrepios de saudade e sorrisos de vontades, que sufoco.
Há páginas em branco, amareladas. Há versos perdidos no mapa. Há um novo amor e velhas vontades. Há dúvidas e certezas, transtornadas. Espirros e lágrimas. Há peles de todas as cores. Fogo, carvão, ferrugem e alecrim. Há todos os tipos de sabores, meio-amargos, ácidos, voláteis. Há estações que se confundem, invernos que se precipitam, frios que são na alma, em mim. Há olhos que me olham de lugares impossíveis. Há desejos que escorrem pelas pontas dos dedos. Há verdades de todos os tamanhos e modelos. Não há molde que contenha os transbordamentos.
Imagens, fragmentos, canções, são lembrança. A memória é um amontoado do que não foi a construir o que ninguém sabe se será. Na espiral que é o tempo, pulsa, arde e alucina. E tudo o que seria recordação é sentimento.
São tantos rostos neste silêncio, que sufoco. É tanta beleza ao meu redor, que estarreço. Não sei lidar com mais de uma coisa a um só tempo. Não sei dizer se é de amor ou distração. Que sufoco.
Escrito por Chapeleira às 01h12
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