
Olhei meus demônios nos olhos, e eles eram muitos. Chamei-os pelos nomes, pensei em cada uma das vezes que nos vimos. Olhei-os e vi a mim mesma em suas retinas opacas. Ao meu redor, pessoas riam, conversavam, bebiam. A vida seguia sem notar que eu não estava, que eu faltava mergulhada em mim mesma. Escrutinei com precisão milimétrica cada um dos meus infernos, e eles são vários. Não houve um só canto que me passasse despercebido.
Sim, esta sou eu. Deste reconhecer-me de ontem me surge hoje esta força estranha. Incomunicável, ainda dentro dos recantos de mim mesma, torno-me em pedra. E quase ouço as vozes de meus amigos pranteando esta partida. Quase sinto suas mãos amigas, crispadas.
Não, não mais. Não mais daquela vontade de sentido. É possível, talvez, desenhar os pontos. A linha que os liga é aleatória. De repente caem sobre mim certezas que me assolam, por que não são minhas. São nefandas e concretas. Dão-se a mim sem explicações. O mundo não é para amadores.
Chega de olhar ao redor. Ser-me assim já não basta. E o inteiro, pela eternidade, requer sacrifícios. Eu, exposta em praça pública, já não posso mais ter pena de mim. Este abismo que me encaminha para minhas próprias profundezas é orgulhoso.
Tudo o que brilha no outro não me pertence, não se relaciona comigo, e não sinto que a justiça tenha nada a ver com isto. Que brilhem os que foram feitos de luz.
Eu, treva e tempestade, já não choro. Perco-me em meus próprios labirintos. Embarco nesta jornada sem pudores de mim mesma. Recolho-me os cacos e construo um todo diverso do anterior. Inaudita, preparo-me para a próxima guerra, que virá. Como na anterior, não haverá testemunhas. Mantenho os olhos abertos.
Escrito por Chapeleira às 17h13
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