Chapelaria das Palavras


Caríssimo,

Quando Anais Nin iniciou sua relação com um outro casal - Henry e June, (Henry, aqui, bom que se esclareça, trata-se de Henry Miller) foi advertida por uma amiga: "cuidado, Anais, o sexo, uma vez conhecendo "desvios" e caminhos mais "ousados", costuma, depois, a não se contentar com menos..." Não foi exatamente assim o conselho, mas muito parecido com isto. O filme, resultado do triângulo (com Maria de Medeiros como Anais e Uma Turmam como June, mulher de Henry) é uma poesia. A relação entre eles foi difícil, e linda. Sabemos que Anais tornou-se mestra na arte de falar do amor, do sexo, e do erotismo, que a maioria de nós não conhece tão bem quanto ela permitiu-se conhecer. Sofreu, pagou o preço de suas investidas, e viveu - no sentido lato do verbo.


A banalidade dos nossos tempos, caríssimo, é o que me preocupa.


Marguerites - Duras e Yourcenar - também viveram, libertárias, experiências amorosas e eróticas avassaladoras. Mas elas eram, como Anais, francesas. Virgínia Woolf, em sua literatura magnífica, fez de Vita Sackville-West, sua
amiga e amante, Orlando, "a mulher imortal". Ambas eram casadas e amavam imensamente seus maridos, Leonard e Harold. Mas elas eram Inglesas, Eduardianas, e sabemos - há coisas que só são possíveis em uma ilha, e o fog londrino deve ser propício a acontecimentos inimagináveis nestes nossos trópicos, suponho.

 

Você diz que eu sou uma "Lady", e sorrio pensando nestas mulheres incríveis. Em todas elas, cuja capacidade de amar me parece para além, sim, de bem e mal. Eis o grande desafio. E que o amor, o sentimento original e originário de infinitas
possibilidades, deve passar por tudo isto apenas para tornar se mais forte, inefável.


Abstrações, meu caro, antes de uma reunião e durante a impressão de páginas que me fazem corar, frente a memória de criaturas como estas que cito aqui. Abstrações e desejos, sinceros, de que tudo dê certo entre você e a sua amada, nos termos que forem necessários, porque são estes, em verdade, os precisos - e preciosos.

 


Amor,

 

 

 

(na foto, a jovem Virgínia Woolf)

 



Escrito por Chapeleira às 05h31
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