
O diabo é que eu olho para trás. Para antes de mim. E quanto mais fundo mais remoto. Mas remoto mesmo, a valer, de tão distante. Desde então até agora muitas mais correntes literárias cantaram as almas das gentes. O diabo é que os poetas modernos todos são concretos. Eu, não. Essa prosa que nasce comigo – ou antes? – já vem empoeirada. Tem muito mofo nela. Prosa mofada, que brota nova desses meus sentimentos velhos, fora de moda, ultrapassados. É como se eu tivesse nascido atropelada por um passado que não me pertence, mas que vem imiscuído nas palavras que eu escolho para dizer de muito, e de nada. E como nada vale e não há Deus que justifique a vida – vivida ou sonhada – jogo as palavras fora. O diabo é que o tempo passa.
Escrito por Chapeleira às 04h04
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